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  • Mari Suter

A cidade

A gente e a cidade. Os outros e a gente. A cidade e os outros.

No caso a cidade é Lisboa, a gente sou eu e os outros é um senhor francês de testa suada e olhos raivosos: entre nós um poema.


Arquitetura e urbanismo são dois temas que me fascinam: sabe quando a gente pensa sobre que assuntos no cativam a ponto de pensar "eu teria me formado nisso"? Pois para mim, essas duas áreas entram nesse combo.

Estamos em tempo de Sincronicidade, é fato: são eventos naturais, pessoas, músicas e conversas entre cortadas que mandam mensagem. Sabe? Quando você recebe uma resposta "do além" a um questionamento difícil, ou aquele empurrãozinho sobre uma questão para a qual no fundo você já tinha solução. Hoje tive uma das grandes. Na última semana descobri um programa de televisão britânico em que os apresentadores visitam casas extraordinárias ao redor do mundo, e achei encantador: foi quando lembrei a mim mesma o quanto esse campo de estudo me cativa. Os últimos meses de Lisboa também, é claro: a cidade vive um momento exuberante em que o derruba e constrói anda a todo vapor.


E hoje, no caminho para um jardim público, fui surpreendida pela reação de um senhor ao me ver escrever um poema na caixa de luz da rua pela qual ele passava ao fazer sua corrida matinal. Ele já suava por conta do exercício, mas na fração de tempo durante a qual conversamos me pareceu que a água salgada era resultado do calor raivoso que ele sentia por dentro: o homem estava verdadeiramente indignado comigo. Na sua percepção, o que eu estava fazendo era depredação de patrimônio público e ponto: não lhe interessou saber que se tratava de poesia, ou de qual era a minha intenção, ou de como eu percebia a intervenção artística na cidade - ele simplesmente não me ouviu.


É claro que tudo isso aí em cima eu elaborei nas últimas 5 horas: no momento eu só consegui dizer "sinto muito" ou no meu francês enferrujado "je suis desolée". Eu estava desolée mesmo, não por concordar com ele ou porque ele ameaçou chamar a polícia (!), mas porque eu fiquei espantada com a percepção de que alguém se sinta ofendido com a expressão artística que não seja canônica. A percepção de cidade, e de 'público', de belo do senhor é tão restrita que a poesia na rua vale menos que uma caixa de luz milimetricamente pintada de... cinza.


A situação me lembrou minha cidade: a polêmica do prefeito que apagou os murais de grafiti porque não se enquadravam à visão de cidade que ele estampava no slogan da administração; o recente debate sobre a manutenção ou derrubada de monumentos que exaltam figuras violentas da História; a frase pixada na pilastra do viaduto|monstro minhocão - "pelo fim da autoridade estética".


"Pessoalmente, a chateação é mais pela forma agressiva com a qual ele se dirigiu a mim do que pela sua maneira de raciocinar: acho que a diversidade de pensamento é algo que devemos acalentar - nós poderíamos ter tido uma conversa amigável que resultaria em um consenso ou na concordância em descordar. Mas ele estava convicto de que estava certo, e nenhuma evidência seria capaz de mudar seu ponto de vista."

O espanto é também porque revela uma visão de mundo que prevê uma narrativa única, embalada, falsa - eu, particularmente acho lindo quando alguém tenta falar a língua do lugar onde se encontra, o que não parece ser o caso dele.


Como acontece com a pretensa sobriedade da arte clássica, que provavelmente foi a que formou o francês: já tem uns anos que os pesquisadores mostraram as cores das estátuas greco-romanas. Elas não eram areia, bege, blasé. Eram bem coloridas. E com combinações de tons diferentonas, do tipo que essa gente não apreciaria: e ainda assim, a narrativa única é tão forte que esse continua sendo um modelo de beleza - mesmo sem nunca ter existido!


São essas reflexões que me fazem gostar tanto de Arquitetura e Urbanismo: esses são campos de atividade em que a humanidade é o assunto central (às vezes pela ausência). A cidade, eu e minha poesia, o francês: todo mundo deveria caber, nem que fosse no âmbito do debate. O final da história: fui embora para o jardim, que reforçou a minha percepção de que existem diferentes formas de usufruir do território, e mesmo que a gente discorde de como isso é feito pelos outros, é preciso haver respeito.


Quanto à Sincronicidade: não, eu não vou entrar para a faculdade de novo. O lembrete "do além" foi o de que escrever é prazer e missão - esse é o meu caminho para o Jardim, mesmo que desagrade uns ou outros.

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