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  • Mari Suter

A lábia

O som sibilante da língua que se movimenta como cobra, um abre e fecha da boca que fala, fala e não diz nada. Mas tem fala que cura.

A coitada que leva a fama - isso porque o ser humano não é capaz de se responsabilizar pelas próprias atitudes e cria imagens para esconder o que lhe parece feio no espelho.


"Parece uma rosa

De longe é formosa

É toda recalcada

A alegria alheia incomoda"


A lábia, a cobra, a vibe esquisita nada mais são do que pedidos de socorro. Sim, isso mesmo: aquela pessoa que te passou para traz, aquele cara que se dizia amigo e sempre dava um jeito de te constranger, o pilantra que tentou de dar um golpe, a vendedora que omite informações pra fechar um negócio - tá todo mundo pedindo ajuda. "A recalcada" que caiu na boca do povo como sinônimo de invejosa é a resposta para o falso paradoxo.


Embora não sejam sinônimos, recalque e inveja andam de mãos dadas e brincam juntos no parquinho - em inglês são frienemies: gente que diz uma coisa enquanto sente outra. E esse desencontro entre o que sai da boca e o que faz bater o coração tem a ver com o medo de ser quem se é (ou gostaria de ser): o recalque é um mecanismo de defesa em que a gente ignora algo que existe em nós - mesmo que ainda em potência - e que se manifesta quando alguém perto de nós é capaz de manifestar esse 'algo' sem grandes problemas. O outro nos gera incômodo, não porque faz o que faz, mas porque faz o que a gente gostaria de fazer - a esse processo a Psicologia chama de projeção.


Fato é: a gente tá entrando em uma Era que nós chama a sermos responsáveis por nós mesmos, porque é essa responsabilização no âmbito pessoal que vai nos levar para um avanço coletivo. Aquário ou Aguadeiro é aquele que zela pela Água - o bem maior - a detentora da Vida neste planeta; e justamente por estar incumbido de uma tarefa que afeta o Todo, ele precisa de certa impessoalidade para não se identificar com os fragmentos.


Então tá na hora de deixar o recalque de lado, olhar com coragem para si mesmo e buscar entender o que estamos jogando para debaixo do tapete, como se não existisse - porque além do risco de fazer mal a pessoas que não tem nada a ver com a sua poeira, esse processo simplesmente não funciona: o que você tenta esconder de si mesmo volta em cada esquina.


Não tem paciência pra nada nem ninguém? Pode apostar que a próxima vez que você estrar numa fila, as pessoas com passagem preferencial vão brotar do chão. Prega que as pessoas têm de ter liberdade religiosa mas no fundo acredita que sua visão de mundo é a certa? Tenho certeza que os pregadores vão te ver como se tivesse um sinal luminoso na testa. Vive querendo ser o mais santo dos seres humanos? Certeza que cada novo dia vai trazer um pilantra tentando te passar a perna.


Não estou escrevendo esse texto para incentivar ninguém a fazer papel de trouxa - eu já fiz isso durante tempo o bastante por todos nós :) . Não, a minha ideia aqui é tentar te fazer perceber qual a sua gaveta que ficou fechada nas últimas faxinas, quantas são as caixas que você não abre desde a infância. E também de tentar te fazer lembrar disso tudo quando uma dessas pessoas cruzar seu caminho de novo: se for alguém irrelevante para você, só deixa passar (com votos de melhora); mas se for alguém que tem espaço nos seus afetos, tenta acolher... mostrando essa dança das cadeiras que a mente faz os nossos sentimentos: para lidar com uma questão é preciso reconhecer que ela existe, se não é como buscar um lugar para sentar quando a música para e dar com a bunda no chão.


Talvez a lábia daquela primeira serpente não fosse tão ruim assim: acho que era só história sobre projeção. Sssss...

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