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  • Mari Suter

A Mão

Da transformação cultural que ela traz em si.

Já se deu conta do poder que essas duas ferramentas têm?!

No último texto falamos sobre o MASP e suas recentes mudanças estruturais, e foi pensando no museu que me veio esse tema: a exposição que inaugurou o espaço em 1969 — “A mão do povo brasileiro” — tratava do conjunto de objetos que representam a nossa cultura e buscava um novo olhar para os processos de produção desses itens.

Mesmo na clara intenção de valorizar o que antes passava longe desse ambiente, a exposição inaugural mostrou o quanto estamos imersos no inconsciente coletivo que nos forma, e a dificuldade de mudar o prisma — a mente é ardilosa e pode nos fazer sentir revolucionários mesmo quando estamos reproduzindo mais do mesmo.


Definições como “arte primitiva” ou “arte espontânea” delimitam e separam tipos de arte e tipos de homem em categorias, status, valores. E embora o nome da exposição traga o termo “popular” como tentativa de trazer o museu pro chão, pra realidade do que é produzido pela população — a ‘mão’ tinha (e ainda tem) uma conexão de significado mais com a habilidade do que com a inteligência ou com o gênio.


As palavras têm espessuras históricas — e com elas nossos processos de construção e desconstrução individual. A ‘mão’ está semanticamente dissociada do cérebro — e não que essa tenha sido a intenção de Lina Bo Bardi (sua obra mostra claramente outros anseios), mas usá-la nessa composição acarreta à interpretação de que o artesão é mão de obra e não ser criativo.


Uma pausa para falar — de modo bem sucinto — sobre Lina. Em seus estudos, viagens e projetos, a arquiteta tinha como objetivo elevar os costumes à condição de elementos úteis, unindo teoria e prática para que o museu acolhesse todo o processo de produção da arte mostrando como um objeto passa do âmbito individual ao coletivo — em última instância, fazer com que os edifícios se articulassem com os espaços da cidade, em uma ação política.


Tudo isso para dizer que o grande movimento ‘maker’ é o assopro depois do tapa. Ou uma tentativa de elevar o padrão do que é artesanal — já que o preconceito se revela inclusive na lexicografia: arteSANAL porque não ARTE. Começamos a falar de ‘inteligência criativa’ de ‘artesanato contemporâneo’, de ‘espaços maker’ porque precisamos nos distanciar do povo que usa a mão. Esse preconceito remonta ao nosso passado escravocrata, tão mal resolvido e em processo de terapia social: a relação entre quem põe a mão na massa e quem pode mandar fazer.


Maker


Exaltamos o objeto ‘feito à mão’ — mas não o trabalho ou a pessoa que o produziu. Quando muito, nessa nova onda de feiras hype, elegemos estilistas, designers, arquitetos ou qualquer profissão autônoma que tire o ranço recalcado daquilo que é caseiro, como seres de luz e mega talentos isolados do resto dos mortais. Embora a gente esteja em um momento de grande mudança de paradigma, é preciso ter cuidado para não usar o dito progresso como falácia que perpetua a cultura colonialista.


Corre-se o risco de instauração de uma nova modalidade de relações sociais desajustadas tendo o discurso progressista como cortina de fumaça: intelectuais e artistas, inspirados por ideologias de esquerda, que acabam produzindo objetos de fruição para as elites. A verdade é que esse país tem uma riqueza latente, não só nos recursos naturais, mas na gente que trabalha com afinco e que tem muito talento.


As periferias, comunidades, favelas do Brasil guardam o cerne da Inovação — no fluxo contínuo das relações horizontais, das necessidades ignoradas pelo Estado e pela sociedade civil, da correnteza de articulações e negociações contínuas, forma-se um giral de criatividade: o famoso ‘se vira’. Desde a tradição que revela o poder das ervas até a criação de novas formas de serviço, quando a gente observa o saber popular, a gente passa amar o povo que o produziu.


Esse texto mostra que o tema tem pano pra manga, e eu — filha do meio termo — tenho que parar de puxar os fios, pois há chance de o tecido se desmanchar e a mensagem perder a força. Só sei que o que me inspira e a continuar escrevendo, mesmo sem saber se alguém vai passar o olho por essas letras, é saber que esse contínuo de ideias foi costurado pelas minhas próprias mãos.

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