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  • Mari Suter

Autonomia

Autônomo: aquele que estabelece as próprias leis.

Você sabe a diferença entre solidão e solitude? Vale a pena buscar entender os dois termos, pois estamos entrando em uma Era onde essas duas sensações vão imperar.

Autonomia é a junção de -auto ou seja "de si mesmo" com -nomos ou "lei", e esse é um conceito que encontramos em diferentes áreas do conhecimento humano: do estudo sobre a moral até a biomimética.

No último final de semana me reuni - ao ar livre e cumprindo as determinações de segurança sanitária - com um grupo de novos amigos: tive a sorte de reencontrar em Lisboa uma pessoa muito querida que (talvez justamente por isso) está cercada de gente interessante - e entre amenidades alguns temas mais densos tomaram conta do bate-papo. Do consenso triste sobre a realidade política brasileira, passamos a falar sobre como os últimos anos mexeram com as nossas relações pessoais, sobre o fato de que algumas interações simplesmente tiveram de ser interrompidas, porque a dissonância entre perspectivas se mostrou abissal.


A mim parece que esse cenário de dissolução de amizades, redirecionamento profissional, afastamento entre familiares, divórcios e afins é um prenúncio dos novos ares - que já não são tão novos porque começaram: é tempo de exercer a Autonomia. Na conversa do Sábado disse, e repito aqui com uma nova reflexão: a Anarquia é o sistema político de uma sociedade evoluída - ainda que seja apenas uma utopia, me parece que ela está ganhando forma - de modo caótico, é verdade, mas a fixação pela mudança via 'ordem e progresso' também se mostrou ineficaz, e é simplesmente impossível buscar novos resultados mantendo o mesmo modus operandi.


Digo isso porque a Autonomia é a base da Anarquia, e ao meu ver parece óbvio que o momento pede autogestão a todos nós. Acredito que seja interessante ler e pesquisar sobre essa forma de organização política, mas eu quero mesmo é falar de Autonomia: essa capacidade inerente ao ser humano de se virar nos trinta. Eu falei ali em cima que o conceito é requisitado em diferentes áreas do pensamento, e é porque ele é a grande moeda de duas caras da Humanidade, a via de mão dupla, a "insustentável leveza do ser" - somos todos um.


A frase da nova 'new age' tem pipocado em redes virtuais e encontros presenciais há algum tempo já a ponto de estar sendo considerada clichê - e eu como poeta particularmente adoro os clichês, porque penso que eles nos falam de obviedades não assimiladas - no fundo o clichê é uma ironia da Vida, tipo:


"Meu bem, tô aqui repetindo a mensagem quinhentas mil vezes e você ainda não pescou?! Me ajuda a te ajudar!"

Essa expressão vem sendo usada para falar da unicidade, do sistema, da rede que nos embrenha: de fato é importante se aperceber da conexão que nos une em nó, sobretudo depois de séculos que fomentaram um individualismo assassino e em última instância autossabotador. Mas como tudo na Vida, o problema acontece quando a gente erra a mão na dose, porque a frase tem duplo sentido - somos todos um porque parte de um Todo, mas somos todos um porque únicos.


Aqui entra a Autonomia: na Ciência Política, na Filosofia, na Medicina, na Educação, até na Tecnologia - em todos esses âmbitos ela fala de Consciência. A Consciência pede presença, atenção, equilíbrio entre racionalidade e emoção, convergência de interesses, zoom in e zoom out, para que a escolha tomada seja a melhor possível: não necessariamente a ideal, mas a melhor possível.


E cabe a cada um de nós fazer a lição de casa. Sinto muito dizer que essa bucha é individual, e paradoxalmente só vai ter efetividade coletiva se a gente entender que a única instância real de poder que temos é sobre si mesmo. Lembra da 'solidão vs. solitude'? Essa dicotomia entra aqui: o percurso é solitário, mas a sensação não precisa ser dolorida - se a gente assimila o porquê de ser assim, passa inclusive a ter prazer com a própria companhia.


Para encerrar, eu volto pra palavra "utopia" - a Etimologia fala da união ente "ou" e "lugar", atente para o fato de que o prefixo não é "a" que encarna a negação: o "ou" fala de alternativa como "um lugar ou outro", "um lugar que não agora". E eu digo: até Ser.



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