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  • Mari Suter

Cultura

Gostando ou não, consciente ou recalcada: ela é parte essencial de quem somos, e consequentemente interfere na maneira como interagimos.

O nome do docinho que você vê aqui em cima fala de uma disputa política, sabia?


Pois é, "brigadeiro" era a patente de um candidato à Presidência do Brasil - Eduardo Gomes - e o doce (com uma receita ligeiramente diferente da atual) surgiu como uma forma de arrecadar fundos para a sua campanha; a variante "negrinho" é usada no Rio Grande do Sul pois o estado apoiava majoritariamente Getúlio Vargas - e por ali não queriam fazer alusão ao seu opositor.


"Apesar de você

Amanhã há de ser outro dia

Eu pergunto a você onde vai se esconder

Da enorme euforia?

Como vai proibir

Quando o galo insistir em cantar?

Água nova brotando

E a gente se amando sem parar"


Você conhece a História do seu país? Tá, vamos começar com calma.... você sabe porque recebeu o nome que te define? Já se interessou em saber quem são seus pais, eu digo saber de fato, como quando a gente diz "fulano me conhece bem...". Quem foram seus avós, no que eles acreditavam, as pessoas que amaram, o que esperavam da Vida? E os tempos passados do seu bairro? Já viu alguma foto de como era seu quarteirão há 5, 20, 60 anos atrás?


A história do brigadeiro te define como cidadão, mas também como indivíduo. O doce que praticamente define a festa brasileira tem uma carga política gigante, fala da força do militarismo, fala de racismo - e tudo isso atua na sua vida, você querendo ou não, você sabendo ou não. Cultura não tem a ver com erudição, ou juízo de valor do que é bonito, correto. Tem a ver com o que a gente vivencia, aquilo que os que nos criaram viveram, e assim por diante.


E ainda tem mais uma: tem a ver também com o que aconteceu e deixaram de nos contar. A Epigenética mostra que nós carregamos códigos silenciosos, padrões que herdamos das gerações anteriores e que afetam o nosso 'agora'. A memória celular é a caneta que busca papel para que as narrativas silenciadas ganhem reconhecimento, sejam honradas pelo simples fato de terem existido - e tudo que Há merece respeito.


No caso do Brasil, a lição de casa (além de uma boa pesquisa sobre quem construiu a SUA casa) é pesquisar sobre as nossas 3 principais matrizes étnicas: somos indígenas, africanos e europeus, mas por questões políticas como a do docinho nós direcionamos nosso foco somente para esta última, e isso nos deixa incompletos. Houve ainda uma grandessíssima miscigenação - de maneira inegavelmente violenta - o que faz do nosso povo ainda mais complexo.


Quando a busca, mesmo que de forma inconsciente, é dificultada nos vemos imersos em conflitos: todas as vozes querem e precisam ser ouvidas, mas tem uma monopolizando o microfone. E quem perde somos nós, porque ficamos sempre com sensação de que algo está faltando e também porque deixamos de absorver a riqueza de valores e ensinamentos que os excluídos teriam a nos oferecer.



Já se foi mais de meio ano desde que cheguei a Lisboa, e me encanta perceber como a distância sempre amplia a nossa perspectiva. Eu, como boa canceriana, sempre busquei entender as estórias que me constituem... mas o ascendente em Aquário tem gritado nos últimos tempos, alargando ainda mais a minha hereditariedade. Cada dia mais, me percebo cidadã do mundo, pertencente a um sistema, que é um entre muitos no vasto e familiar Universo. Mas a gente tem que começar por algum lugar, então vai lá ter um dedo de prosa com os seus ;)

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