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  • Mari Suter

Linha tênue

Elas parecem tão reais que a gente realmente acredita que existem, até não acreditar mais.

Eu me pergunto como algo que não existe pode exercer tamanho poder sobre nós. O que mostra a maneira como interagimos: ser humano é convenção.


"Atravessamos o mar Egeu O barco cheio de fariseus Como os cubanos, sírios, ciganos Como romanos sem Coliseu Atravessamos pro outro lado No Rio Vermelho do mar sagrado Os Center shoppings superlotados De retirantes refugiados"

As fronteiras sempre me pareceram algo absurdo... sempre. Talvez seja o ascendente em Aquário, a criação em São Paulo ou alguma vida passada. A ideia de que as pessoas não poderiam ir e vir conforme sua vontade me soava estranha pois o senso de unicidade sempre me acompanhou. Não sei bem ao certo o que motivou essa percepção, mas sei que a tenho desde muito nova: me lembro ainda menina, sentada na janela do apartamento na Vila Monumento observando a cidade com a angústia de saber que no mundo havia tanta gente que eu simplesmente não ia conhecer. Te parece absurdo? Imagina sentir isso aos 11 anos de idade.


Há três meses voltei ao status de imigrante: 10 anos separam uma experiência da outra e muita vivência também - o que invariavelmente faz as coisas serem encaradas com mais facilidade - mas a sensação de não pertencimento ainda é a mesma. E olha que eu não tive nenhuma dificuldade de entrar e permanecer em Estados estrangeiros, pela origem familiar tenho um papel que me autoriza estar aqui - e isso também me soa surreal: as fronteiras e os papéis são meras convenções, e no entanto determinam quem entra e quem sai, quem pode ou não, quem existe ou é invisível.


No último final de semana esse tema entrou no meu caminho como as gaivotas que rasgam o céu de Lisboa - rápidas, sem pedir licença, belas e melancólicas. Sexta à noite, depois de encontrar uma amiga e ouvir os mais diversos sotaques, cheguei em casa e buscando algo para assistir cheguei em STATELESS - a minissérie me deu um soco na boca do estômago, porque além da excelente dramaturgia há um lembrete inicial a cada episódio dizendo que aquilo foi inspirado em histórias reais.


Na metade da minha tarde de Sábado, quando eu me dirigia para uma sorveteria cruzei a Eliza, uma menina russa com a qual fiz amizade na porta do banco - sim, eu sou dessas - ela voltava do seu turno e me pareceu triste, parei um pouco para conversar. A garota está em Portugal a seis meses e arranjou um emprego como ajudante de limpeza de um shopping - com uma formação em business - e hoje se encontra num beco sem saída: o trabalho que paga suas contas não lhe autoriza a ficar legalmente aqui, e como já ultrapassou o período previsto de visto não consegue uma colocação que lhe permita regularizar a situação.


Meu sorvete já não tinha mais o mesmo gosto... fiquei pensando nisso por um tempo: não há problema algum em trabalhar em serviços de limpeza, a questão é porque esse tipo de emprego não é reconhecido a ponto de permitir a permanência dela? Ou porque ela não consegue um trabalho na área em que se formou? Porque o Ameer (personagem da série) tem de mentir para que a filha tenha um futuro na Austrália? Porque um papel tem mais importância do que a vida de alguém?


Terminei a série chateada, porque essas divisões são cruéis: com quem busca uma vida melhor em outro território mas também com a Humanidade de um modo geral. Nossa espécie não entendeu ainda que só estamos aqui porque somos seres sociais - foi a aglomeração em grupos - que ironia do destino, né? - que nos permitiu sobreviver e evoluir. Pra sair da chateação, comecei a ver a CONNECTED que uma amiga tinha indicado - e voltei para a sensação de unicidade dos meus 11 anos, dessa vez sem a angústia: a beleza melancólica das gaivotas me preencheu.


A gente tá sim conectado - todo mundo - o ser humano sabendo ou não, e isso é lindo: o mundo é um organismo vivo e mesmo os rios, vales ou cadeias montanhosas que por vezes são usadas pelo Homem como fronteiras imaginárias, na verdade são apenas descontinuidades da mesma paisagem - feito as rugas que se formam de baixo dos meus olhos como facilitadoras das lágrimas que escorrem, ou seu umbigo sendo a depressão inesperada em uma grande planície. E como a Terra sempre dá um jeito de equilibrar as forças da Natureza, eu confio que assim também será com o humano, mesmo que seja nos varrendo daqui.

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