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  • Mari Suter

Matriz

A gente tá aqui pra trocar files, arquivos energéticos.

Você já reparou que todas as manifestações espiritualistas têm algum ritual que pede o ato de impostar as mãos?


A resposta derradeira sobre o que estamos fazendo nesse planeta ninguém tem. Isso é um fato. A gente pode discorrer, profetizar, debater, mas certeza mesmo ninguém tem. E tudo bem. Mas tem uma coisa que é verdade, inquestionável: estamos aqui juntos.

Nas religiões tradicionais do Ocidente - semichá no Judaísmo, impositio manuum no Catolicismo - a impostação acontece nos processos de ordenação, como um rito de passagem a um novo patamar de conhecimento, mas também de hierarquia. Nas tradições Orientais - como o Reiki ou a Vedana - ela também é comum e tem a cura como objetivo: a potência de trazer saúde não está na mão em si, elas servem de veículo para algo maior - assim, não há um sentido de autoridade sobre quem estende a mão. E há as manifestações religiosas que a consideram uma forma de purificação energética - evangélicos, espiritas, umbandistas, mórmons, messiânicos, filhos de santo.


Em todos esses cerimoniais, há duas pessoas. A ordenação, a iniciação, o passe, a canalização, o benzimento, a limpeza energética: em todos os casos falamos de dois elementos. É certo que algumas desses rituais autorizam ou até incentivam a autoaplicação, mas ela só acontece depois que alguém passa o conhecimento em diante, ensinando como fazê-lo. E a mim parece que essa é uma bela metáfora das relações humanas.


O ponto aqui é: viver como ser humano - não vou nem entrar no tema da Ecologia hein... - pressupõe o compartilhamento, a conexão, o vínculo. Para além da beleza da frase "é impossível ser feliz sozinho" existe a realidade nua e crua: a gente evoluiu para ser um animal social, isso quer dizer que também é impossível sobreviver sozinho. Lembra do náufrago? Aquele cara é a melhor alegoria desse raciocínio: ele teve sua saúde debilitada pela falta de acesso às ferramentas que a Humanidade desenvolveu, mas também quase entra em parafuso por estar sem contato emocional com outros seres, a ponto de criar o Wilson.


E mesmo sem saber exatamente por qual razão estamos todos aqui nesse planeta lindão e abundante - se a gente souber cuidar da casa obviamente (ó a Ecologia dando um salve de novo) - é fato que a gente tem de trocar files, interagir, conversar, se tocar, beijar na boca, brincar de porca e parafuso (o prego e o buraco vocês escolhem).


Todo mundo que passa pela sua vida, tá trocando arquivo contigo: aquele gatinho do busão que com um olhar te esquentou as bochechas; a senhora de mal humor no banco que com uma resposta atravessada te travou a mandíbula; o vizinho que na quarentena resolveu praticar a flauta e por vezes te faz chorar de emoção, mas hora ou outra te faz querer tacar o instrumento pela janela; a vovó que parece ter mãos de fada na hora de temperar a comida; o tio que te faz babar com um cafuné; aquela morena que te levou ao paraíso por uma noite e sumiu; aquele beijo inesquecível.


Dos desconhecidos que cruzam nossos caminhos diariamente aos amigos e familiares que ao longo de anos nos ajudaram a ser quem somos: a gente tá na mesma, galera - e todo mundo tem algo pra ensinar. Pra encerrar, me parece que para além da devastação que o vírus trouxe, pandemia tem um simbolismo tremendo - ela nos distanciou a todos - escondeu a boca que fala abobrinhas mas também elogios e afastou as mãos que trocam energia: seja no aperto de mão que sela compromissos, no carinho que só a pele sabe descrever, ou na imposição de mãos do começo desse texto.

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