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  • Mari Suter

Representação

Na grande maioria dos casos, a gente faz parte de diferentes núcleos da novela: só que não somos conscientes da trama que une o enredo.

No fundo, estamos todos interpretando papéis. Já sabe o nome das suas personagens?


No último mês embarquei na aventura de aprender a desenhar. Sempre fiz meus rabiscos, já me arrisquei bastante nas aulas de artes da escola, mas dessa vez a vontade vem de um outro lugar. Para quem não sabe, eu sou poeta - comecei a escrever ainda bem nova, como uma forma de desabafo e porque de alguma forma eu sempre tive muita facilidade de transitar pelas palavras; mas recentemente percebi que a poesia não dá mais conta do que eu trago comigo.


Gosto muito da metáfora que o professor Marcelo Gleiser criou para falar do ser humano e da nossa fome por saber e que eu grosseiramente resumo aqui: a gente é uma ilha de saber num mar de desconhecimento, e quanto mais a nossa ilha cresce maior a zona de contato com a água e consequentemente com o aquilo que ainda há para se descobrir.


Essa imagem me voltou à mente porque é essa a sensação que sinto ter chegado com meus poemas - uma linguagem só não basta mais para expressar o que se passa aqui dentro, e ao buscar novas ferramentas de comunicação, percebi que ainda há muito a aprender: os primeiros passos no caminho do desenho me trouxeram de novo a sensação de "não saber", como se eu tivesse levado o olhar da minha Consciência do tamanho da ilha que cresceu até a linha que traceja o encontro desse meu território com o mar.


É claro que esse lugar não é sempre prazeroso: estou num exercício de desenhar uma mão por dia, e as três primeiras são pavorosas! Rsrs - mas essa é justamente a ideia do professor Puño, o ilustrador tem a experiência de quem viu seu trabalhado evoluir e sabe que esse processo nos pede paciência; assim, passados os 7 dias, poderei olhar as 3 mini monstras com afeto, pois elas são parte da minha evolução.


"Pero siento que hay en mí

Algo que esta cambiando

No se ve

Pero siento que hay en mí

Algo que esta cambiando


Pensar dessa forma com relação a outros processos de aprendizagem nos ajuda a ter mais compaixão com nós mesmos, e aos poucos também com aqueles que nos cercam. Voltando com os personagens e a representação: também já tive a oportunidade de atuar de forma amadora e logo de cara "interpretei" mias de uma personagem e quando comecei a escrever esse texto lembrei desse trabalho e de como foi divertido ser outras pessoas por uma tarde (que foi o tempo que gastamos para gravar o curta).


Me lembrei de como foi esquisito no começo, mas também de como fui buscando mentalmente as referências de trejeitos e expressões faciais para dar nuances às duas mulheres que fui naquele vídeo. E no fundo, a vida é isso também. Ou deveria ser, no meu ponto de vista. Porque se a gente observa só um pouquinho a Natureza ou a vida em sociedade, percebemos que a vida está sempre em movimento, sempre! E que quando a gente fica preso num molde só, ela fica sem graça, dolorida mesmo.


A gente não é uma coisa só nos diferentes momentos da nossa existência, mas nem no mesmo dia! Você não fala com seu crush/marido/namorada/peguete do mesmo jeito que fala com o chefe/caixa do supermercado/um cliente; eu não tenho as mesmas expressões quando falo com uma criança ou quando declamo poesia; nós não nos comportamos da mesma forma o tempo todo, não temos os mesmos sentimentos por diferentes pessoas. Mas de um jeito muito louco, quanto mais somos honestos com essa variação, mais nos sentimos integrados, íntegros...


O ser humano é múltiplo e quanto antes a gente se der conta disso, melhor vai ser. Pra todo mundo! Reconheça e vista a camisa das suas personagens - lembrando sempre que há um ator que as interpreta, representa - você não só pode como deve. Sim, é beeem possível que no começo isso faça sentir desconfortável, e que surjam umas mãos pavorosas no seu processo, mas eu garanto que seu filme vai ficar muito mais interessante.

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